Por Everaldo Norões (*)

Postado por Marcos Lima Mochila

.

Querida Marília,

Sinto estranheza pelo fato de algumas pessoas, que vivenciaram experiências de tanta riqueza política e discernimento, mesclarem-se a questões subalternas utilizando o argumento Arraes como pretexto a discursos de ocasião.

Certamente, nunca leram Brasil, o poder e o povo, escrito por ele no exílio.

Nem assimilaram as lições que nos deixou. O oportunismo e a ausência de caráter permeiam a sociedade inteira, inclusive os partidos. O percurso até a sua candidatura comprovou isso.

O livro Tempo de Arraes, do escritor Antônio Callado, continua a ser o testemunho mais objetivo e tocante dos poucos meses que Miguel Arraes governou Pernambuco antes de 1964. O Brasil era outro. Pernambuco também. Mas nada muda na essência do pensamento de homens movidos pelo sentimento do dever cidadão. O conceito de Política, no sentido original, o de cuidar do que é coletivo, permanece. 

Hoje, há tecnologias para difusão de fake news e astronômicos fundos eleitorais alimentados pelo povo que mal se alimenta.  No tempo dele também havia recursos ilícitos de campanhas e redes de calúnia. Sobrevive, porém, o conteúdo do fazer uma política mais alta, que define as pessoas.

Observando o que acontece agora com você, lembro o quanto foi importante para consolidar a reconquista da democracia o retorno dele, Arraes, ao governo de Pernambuco. O PMDB não o acolheu como candidato. Alguns de seus dirigentes temiam que mudanças na lógica da política em curso abalassem as engrenagens do poder que dominavam. Mas o discurso deles deixara de ser algo credível. As alianças se apoiavam em bases questionáveis. Arraes, o político preocupado com o coletivo, tornara-se um problema. Teriam preferido que ele ficasse mais tempo no exílio. Até que, em 1986, após ter sido eleito deputado federal, foi reconduzido ao governo de Pernambuco com vitória singular.

Penso nessas coisas e observo: Não conheço discurso de Arraes contendo promessas de obras. O mais importante para ele não era o anúncio de grandes empreendimentos, nem fórmulas para aperfeiçoamento de engrenagens burocráticas. Nele, havia, isto sim, um núcleo de pensamento, uma visão clara. Tanto que usou como lema um verso de Drummond: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do Mundo”.

Em seu quase ‘silêncio’ havia uma mensagem que as pessoas conseguiam desvendar. Era a política como vocação. Que não vem do sangue, nem se herda.  É uma energia e uma sensibilidade para intuir o que para o outro é mais importante. E o outro sente que você se emociona sonhando o Futuro. Algo que se revela pela emoção.

Quando Arraes estava exposto no Palácio das Princesas, morto, olhei suas mãos, finalmente cruzadas. E, à vista delas, chegaram-me lembranças de um exilado solitário e firme.

Tive a sorte de, muito jovem, ter sido testemunha do momento em que ele, cercado pelos militares, declarou preferir a prisão ou a morte a negociar um mandato que lhe fora outorgado pelo povo.

Tive a sorte, também, de ter convivido com ele no exílio. Tempo em que tínhamos o hábito de jogar xadrez e eu admirava a destreza com que fazia avançar os peões e a serenidade com que anunciava o xeque-mate. Ensinava-nos que tanto na política como no xadrez o bom jogador deve ter uma visão larga e penetrante do tabuleiro. Uma percepção global e dialética. Além disso, é preciso ter como premissa o respeito ao adversário. Vencer com honra e sabedoria.

Uma espécie de síntese da política perfeita.

Querida Marília,

O discurso e o gesto dão forma a um jeito de sentir.    

Você traz ao Recife esperança e alegria.

Forte abraço.

(*) Everardo Norões é sobrinho de Arraes e também foi exilado político

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar