Numa leitura mais aprofundada dos números da pesquisa do Instituto Opinião no Recife, postada ontem neste blog, não seria precipitado arriscar um palpite: a cidade tende a enfrentar duas eleições numa só eleição de primeiro turno: a de Marília Arraes (PT) contra João Campos (PSB) e a de Mendonça Filho (DEM) frente à Patrícia Domingos (Podemos). Traduzindo: não há espaço no Recife para uma disputa final entre candidatos que disputam um mesmo segmento eleitoral.

No caso Marília x João, a batalha se dará em cima do eleitor no chamado campo da esquerda, enquanto Mendonça x Patrícia perseguirão o eleitorado mais conservador, de centro-direita, segmento com mais aderência para o bolsonarismo. É sabido que Recife é uma cidade rebelde e libertária, mas Bolsonaro teve 44% dos votos dos recifenses no primeiro turno presidencial de 2018 e no segundo turno aumentou para quase 50%, precisamente 47,50% dos votos.

Eleição se faz com números, com parâmetros. Qual chance teria quase 50% do eleitor recifense que votou em Bolsonaro dar uma guinada para o PT ou PSB, votando em Marília e João na eleição para prefeito do Recife? Teoricamente, nenhuma. Esse eleitor tende a votar em candidatos que venham a se identificar com o seu pensamento e a sua linha ideológica. Mais uma vez, teoricamente, esse segmento eleitoral está muito mais para Mendonça do que para Patrícia.

Até porque Mendonça assume que quer o voto de bolsonaristas, enquanto Patrícia não é tão decidida assim. Esse eleitorado, alguém poderia corrigir, estaria mais inclinado para um candidato com perfil e defesa mais bolsonaristas, como Alberto Feitosa, candidato do PSC. Mas este leva a desvantagem de ser o mais desconhecido e para subir nas pesquisas teria que ter as benções de Bolsonaro na campanha. O presidente já reiterou que não se envolverá na campanha em nenhuma cidade.

Recife, portanto, terá duas eleições de segundo turno num primeiro turno. O adversário de Marília é João, o de João é Marília. O adversário de Patrícia é Mendonça, o de Mendonça é Patrícia. Se essa tese for contrariada lá na frente, na abertura das urnas, mais uma vez estaremos diante da confirmação de que a política está longe de ser uma ciência exata.

Pisada de bola – Ainda em relação ao eleitorado cativo de Bolsonaro, Mendonça ficou numa condição muito mais favorável para conquistar depois que o presidente nacional do Cidadania, Roberto Freire, postou em suas redes sociais que a candidatura de Patrícia Domingos, a qual o seu partido estava apoiando, representa também o voto do combate ao bolsonarismo, ou seja, mandou dizer que não seria bem-vindo o voto de eleitores simpáticos ao presidente da República ao projeto da delegada para o Recife. Miguel Arraes já dizia, com a sua sabedoria, que não deve rejeitar votos, venham de onde vier, para quem está no jogo em busca da vitória.

Na adversidade – Um dado que chamou atenção na pesquisa do Instituto Opinião, postada hoje no meu blog, sobre a corrida eleitoral no Recife: João Campos, candidato do PSB, além de ser o mais rejeitado, perde a eleição no segundo turno para todos os adversários. A campanha só começa no próximo domingo, mas ele terá pouco tempo para reverter esse quadro de dificuldades, até porque Geraldo Júlio, o seu padrinho, é reprovado por metade dos entrevistados. Geraldo vai encerrando sua passagem pela Prefeitura do Recife com baixos percentuais de aprovação. Não passa dos 45%, segundo a mesma pesquisa do Instituto Opinião, mesmo gastando rios de dinheiro com propaganda.

Sem efeito – Outra leitura interessante: a delegada Patrícia Domingos, candidata do Podemos, estagnou na faixa dos 12 pontos percentuais e o apoio do deputado Daniel Coelho (Cidadania), que saiu da disputa e aliou-se ao projeto da delegada, não surtiu nenhum efeito até o momento. E olha que Coelho vinha pontuando também entre 12% e 13%. Traduzindo: não é fácil transferir voto neste País, principalmente numa cidade rebelde e libertária como Recife. Daniel aposta numa exposição forte pelas mídias sociais nos próximos dias ao lado da delegada, para dar uma demonstração mais na frente, manifestada nas próximas pesquisas, de que tem de fato poder de convencer o seu fiel eleitor a votar na delegada.

por Magno Martins

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