Foi o que disse o governador Miguel Arraes, com voz pausada e olhar firme, ao ser abordado, nos jardins do Palácio, pelos coronéis Ivan Rui e Dutra de Castilho, que anunciavam sua deposição num dia como o de hoje – primeiro de abril de 1964 – há exatamente 56 anos.

Àquela altura – por volta de 11h da manhã – os militares golpistas já haviam obtido a garantia do vice-governador Paulo Guerra de que assumiria o cargo tão logo houvesse a deposição; tinham controlado a guarda do Palácio, trocando PMs por soldados do Exército; e haviam posicionado ninhos de metralhadora apontadas para a sede do governo estadual, na própria praça da República e na Rua da Aurora. “Recolha-se ao segundo andar com sua família”, retrucou Dutra de Castilho, aos gritos (ou “de maneira enérgica”, como definiu Ivan Rui). Sempre sereno, Arraes respondeu que não confiava sua família a quem estava golpeando a democracia.

Releio o relato resumido acima ao abrir pasta do meu arquivo pessoal, recheada de recortes e fotografias de Miguel Arraes. Em uma das fotos eu estou com ele – e vai postada aí. A matéria que mais chamou minha atenção também vai aí reproduzida.

Observe a data – 4 de abril de 1965 – e a fonte – o próprio coronel Ivan Rui, um dos principais artífices do golpe aqui no estado. Trata-se de uma reportagem que preenche três quartos da página 33 daquela edição do JB e não tem assinatura do autor.

O título é “Revolução viveu um drama quando Arraes não aceitou renunciar”. O autor do texto praticamente não se imiscui no relato, todo ele construído com a costura de frases do entrevistado. Apesar disso, se sobressai, nítida, a atitude heróica do governador, que não vacila em defender as prerrogativas do seu mandato legitimamente conquistado, mesmo estando desarmado diante de imenso poderio militar que o cercava.

Ivan Rui contou ainda que haveria, por insistência do comandante regional da Marinha, Almirante Dias Fernandes, uma tentativa de fazer Arraes aderir ao movimento, permitindo a troca de alguns secretários – “não governo com injunções!” – ou que renunciasse, proposta repelida com mais veemência ainda: “Tenho um nome para legar aos meus filhos”. Vários governadores trilharam este caminho. Mas só Arraes preferiu o sacrifício de honrar seus compromissos éticos e políticos.

Arraes foi um dos raros homens que conseguiram demonstrar tanto a bravura súbita do herói individual que define batalhas quanto a coragem que flui sem interrupções ao longo da vida dos grandes homens. É esta que decide as guerras. Livre, foi o governador e o deputado que nunca esqueceu sua missão de guardião dos interesses dos pobres e sempre foi a voz firme em favor da liberdade, da justiça, da democracia. Mantido quase como refém da linha dura militar, quando, pelas próprias leis do regime, já deveria estar solto, era sempre o mesmo – sereno, equilibrado, consciente.

Convivi com Miguel Arraes mais de perto durante seu terceiro governo – 1995 a 1998 – e nos anos nos quais ocupou um escritório no bairro do Cordeiro. Nunca o vi fazer qualquer gesto, nem sequer uma palavra de reclamação pelo que sofreu. Somente ao olhar para a história – que orienta a caminhada rumo ao futuro – se permitia visitar estes acontecimentos e refletir sobre seus significados e implicações. Cada gesto, cada palavra eram e são lições de vida e de politica. Lições que de extrema utilidade, que precisam estar na cabeça e no coração de todos nos dias que estamos vivendo

Viva Arraes!
Viva o Brasil!!
Viva a Democracia, a Liberdade de Expressão!
Três vivas à luta do povo brasileiro!!!

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