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RAIMUNDO

ENTREVISTA

Por Christiane Brito

Postado por Marcos Lima Mochila

 

 

“Costumo dizer que o regime militar não fez nada de bom para o Brasil, mas me pôs em outro rumo” – foi com este comentário que o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira resumiu a trajetória que, nos anos 1960, fez dele o decano do jornalismo político e da imprensa alternativa no Brasil. Em 1968 ele trabalhou na primeira edição da revista Veja e, apesar da censura, com apoio de colegas como Mino Carta, escreveu matérias de denúncia histórica. Com isto deu vazão a uma ousadia que até hoje define o seu jornalismo. Aos 78 anos há idealismo de sobra!

Nesta conversa franca e bem-humorada, Raimundo fez um mergulho nesse passado que já se mede em cinco décadas. Contou suas primeiras ações, que podem ser entendidas como de enfrentamento à “autoridade” – e aos que a encarnam mais visivelmente: os militares.

Leia aqui os principais trechos de suas falas.

Em janeiro de 1965 trabalhei na revista Médico Moderno como jornalista profissional e, depois, na revista Máquinas e Metais, da Editora Abril. Em Máquinas e Metais tinha um sujeito do Partidão, que estava com o controle de O Dia, um jornal do Adhemar de Barros que o Chagas Freitas acabou tomando um pedaço. Só sei que estava abandonado. Íamos, o Paulo Canabrava e eu, para o Bom Retiro e fazíamos o jornal, que era diário, com um bando de telegramas. Aí fui começando a achar que o jornalismo podia ser minha profissão. Tanto Médico Moderno quanto Máquinas e Metais pagavam bem, e logo em seguida me registrei como jornalista profissional. Fui me dando bem, mas ainda meio fora desse trilho da esquerda.

Numa certa altura, com o Zé Arantes, pela influência que tinha com o Zé Dirceu, no movimento estudantil, fizemos um semanário para a Filosofia, um semanário popular, acho que foram só sete números, chamado O Amanhã. Fui o chefe de redação, tinha uma equipe de pesquisa que era o hoje historiador Ricardo Maranhão e seus maranhetes, que faziam suplementos dizendo assim: a Bolívia mostra o caminho; tinha matérias sobre luta armada na América Latina ou os golpes no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Tínhamos um repórter que cobria o movimento sindical e nos fazia matérias meio clandestinamente. O Amanhã foi um jornal de sucesso, vendia em bancas de São Paulo sete mil exemplares. Foi um jornal de estudantes feito para o grande público. A Carta Capital não vende isso hoje.

O jornal durou até que a repressão caiu em cima. Foram na gráfica, fizeram ameaças e o pessoal suspendeu o jornal. Nessa turma tinha – a gente fazia junto com o pessoal do Tusp, na rua Hadock Lobo – o Tonico Ferreira (Antonio Carlos Ferreira), que depois foi secretário do Opinião e do Movimento, ficou com a gente durante muitos anos; o Bernardo Kucinski, que fazia Física comigo, também foi escrever nesse jornal, tinha um bando de gente… nunca acompanhei muito bem, mas tinha uma polêmica entre AP (Ação Popular), PCB, esses dissidentes tinham uma briga entre eles.

Em 1967 fui para a Folha da Tarde. Havia um ascenso no movimento estudantil e no movimento de massas contra a ditadura – têm até livros sobre o que foi a Folha da Tarde, que formou uma redação de esquerda, trouxe para dirigir o Miranda Jordão, que tinha sido diretor da Última Hora no Rio, com um redator chefe da turma dele. Eu era o editor de texto. Estavam também o Chico Caruso, o Paulo Caruso, o Tonico Ferreira e o Frei Betto, que era o chefe de reportagem. Foi um jornal que, naquelas brigas estudantis, estava do lado do povo da Maria Antônia. Não me lembro quanto durou, mas não foi muito, foi um período curto. O quadro estava se aproximando de 1968 e, em certa altura, o Frias (empresário Octávio Frias de Oliveira, dono da Folha de S.Paulo) entregou o jornal para a repressão. Toda a redação, e o jornal passou ser o jornal que prende um cara, tortura e publica o depoimento dele. Realmente um horror. Tive amigos que ficaram no jornal, e disseram que os caras entravam armados na redação, punham o revólver na gaveta… o Frias se mudou para um bunker dentro da Folha, com medo, e aí entregou o jornal para aplacar a repressão.

Me aproximei do pessoal da revista Realidade por causa do trabalho junto ao movimento estudantil. Alguém mostrou para o Paulo Patarra, que era o diretor de redação da Realidade. Fiz dois textos como freelancer, um em que me saí mal. O Miltainho (Milton Severiano da Silva) leu o texto e disse: “Que pena, você é tão amigo nosso!”. Foi um fracasso! O Miltainho foi um dos grandes copidesques. Ele, o Sergio de Souza e o Otoniel (dos Santos Pereira) foram os três maiores copidesques que já conheci na história do Brasil.

Fiz um segundo freelancer com o (Carlos Alberto) Azevedo. Ele chefiou uma equipe de reportagem para documentar a prostituição no Brasil. E fui para a zona de Bauru, que era famosa, frequentada inclusive pelo Adhemar de Barros. Fui o repórter e a Cláudia Andujar a fotógrafa. Fizemos uma boa matéria, recebida com aplausos, e eu achei um caminho para entrar naquela turma.

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1968, revista Veja: denúncia da tortura

Com meu currículo – tinha quinto ano de Engenharia e diploma de Física –, entrei na primeira equipe da revista Veja para fazer Ciências. E tive sorte. Virei um jornalista profissional e político por acidente, um conjunto de acidentes.

A revista Veja saiu vendendo setecentos mil no primeiro número, e menos de um ano depois vendia apenas quinze mil por semana. Foi um fracasso rotundo. E, buscando fórmulas na editoria de Ciências, com o Roberto Pereira, inventamos um fascículo para sair em dez semanas e o último ser a descida do homem na Lua. Fomos contando a história, resultou num livro, bem ilustrado, bonito, bem feito, que conta a disputa entre russos e americanos, os foguetes etc. O povo esperava o negócio da Lua, e foi crescendo, ajudou a revista a vender, sair do buraco. E me deu certa fama. Sempre ali com o Mino (Carta) fechando. Acabou que fui, não para a Lua, mas para os EUA. No Cabo Canaveral, entrevistei o (Werner) Von Braun no Alabama, fui ver os astronautas que ficaram por aqui.

Ao voltar o (presidente general Artur da) Costa e Silva tinha tido um derrame cerebral, isso já em agosto de 1969, e não tinha sucessor – quem escolhia era quem saía e ele saiu por um derrame cerebral. E aí foi uma quizumba. Os milicos sem saber o que fazer. Surgiram três candidaturas. O Mino me chamou e disse: monta uma equipe de reportagem e vai cobrir. A gente não tinha percebido, mas não tinha censura, os milicos estavam brigando entre si. Então fizemos três grupos. Um para acompanhar a candidatura do (general) Albuquerque Lima, outro que acompanhava a candidatura do (general) Médici, que era o Dirceu Brizola, e outro que acompanhava a candidatura do (general) Geisel, que era o Élio Gaspari. Todos excelentes repórteres. A gente ia segunda-feira para o Rio, voltava na sexta e fazíamos uma reunião. Eu distribuía os ganchos, escrevia. Foi uma cobertura melhor do que as coberturas de Veja recentes sobre sucessão presidencial porque foi sem censura. A venda da revista começou a subir em banca e nossa fama aumentando. Para se ter uma ideia, o Élio, do conhecimento da turma do Golbery (do Couto e Silva), acabou herdando seus arquivos, e fez sua fantástica história da ditadura, com documentos – e agora vai divulgar os áudios nas edições futuras. Foi uma coisa espetacular.

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Mais espetacular ainda foi o episódio seguinte. As pessoas não acreditam! A grande matéria sobre torturas no regime militar foi feita no governo Médici, em dezembro de 1969. Ele tomou posse e, logo nas primeiras semanas, o Dirceu, que tinha coberto aquilo, se tornou pessoa completamente grata dentro do Palácio, onde ouviu de um assessor: “O Médici disse que não vai admitir tortura”. Ele me ligou, eu falei para o Mino, que disse: “Vamos fazer uma capa”, que teve como manchete aquela frase: “O presidente não admite torturas”. A imagem usada foi uma foto da Praça dos Três Poderes (Veja, 3 de dezembro de 1969). Com aquela revista, um dos nossos repórteres chegou para o ministro da Justiça e disse: “Olha, o presidente disse que não admite tortura. O que o senhor vai fazer?”. Ele respondeu “vou apurar”. O ministro da Justiça disse que vai apurar as torturas. Então saímos para apurar. A Veja fez um dossiê de todo o Brasil com casos de tortura. Eu peguei um texto do Raymundo Faoro para abrir a matéria, ficou uma maravilha. Essa edição tem na capa a imagem da tortura medieval. E conta grandes histórias de tortura (Veja, 10 de dezembro de 1969). O presidente da Editora Abril, Victor Civita, mandou-a para o governo para mostrar que nosso empenho era ajudar a apurar a tortura. E para livrar o dele também…

A censura era feita por meio de avisos, o censor ligava para a redação da Folha, O Globo, para os grandes jornais… a história de que a Veja ia apurar a tortura correu ao longo da semana. Quando chegou sexta-feira o censor ainda não tinha avisado a Veja. O Mino mandou desligar os telefones da redação. Você vê, você luta com todos os recursos – o Mino desligou os telefones da redação, que trabalhou todo o fechamento sem ouvir… porque se ouve, avisam a redação, avisam a empresa, e você não podia fazer… Foi nosso momento de glória.

Mas existiam outros problemas também. O repórter dessas grandes revistas sempre adquire uma relação de proximidade com essas grandes figuras, e eu tinha uma relação com o João Paulo dos Reis Veloso (ministro do Planejamento) que, não sei o porquê, me considerava amigo dele, e fiz uma falseta com ele, das piores. Eu o entrevistava no Rio. Tinha uma briga de foice no governo entre ele e o Delfim (Netto). Ele tinha feito o II PND, e tinha saído uns números do IBGE que divergiam dos números que tinham lá e, na minha frente, com a caneta, corrigiu aquilo. Eu traiçoeiramente fiz uma ilustração que dizia: o PIB foi de tanto a tanto em 5 minutos. E o Mino fez uma capa detonando com ele. Era um shazam, por baixo do pano tinha uma grande briga. Ele ia se lascar… e a matéria contava. Na redação, um dos editores de economia era o Aloizio Biondi, uma pessoa do bem, era um “anti-delfim”, e ele não gostou: a matéria do jeito que estava era “anti-veloso”. Ele ficou puto e exigiu que a revista publicasse sua carta abrindo a seção de Brasil. Isso deu fofocas. Tinha uma turma que achava que eu era muito esquerdista, chegaram até a inventar que eu tramava contra o Mino para pegar o lugar dele. Tudo sem o menor fundamento.

Minha saída se deu pela seguinte razão – e não pelas fofocas: na biografia do Mino, chamada Castelo de Âmbar, que é um roman à clef, os personagens estão disfarçados; nele apareço como Severino, com a história de que tinha uma trama, feita pelo Severino (o Mino diz que não acreditava que eu estivesse na trama, mas nessa turma de amigos dele tinha um secretário de redação que era de uma corrente muito reformista, não gostava de mim, acho que foi ele que plantou essa história contra mim). O fato é que teve uma discussão entre nós, o Mino e eu, e eu disse: “Posso fazer várias autocríticas, vou lá e o entrevisto, ele diz o que quiser, e publico, sem problemas. Mas abrir minha seção com a carta dele não pode, desmoraliza a revista e a mim”. Fui então transferido para a editoria de Cultura, fizemos algumas edições, fizemos umas coisas até boas, fiquei amigo de alguns caras dessa área – o Tárik de Souza, o Leo Gilson Ribeiro. E aí houve uma condição para eu ser demitido, pedi para o Mino me demitir, me deu uma bolada, comprei a casa da Freguesia do Ó…

Cobrir a inauguração da Transamazônica

Saí da Veja, mas continuei fazendo algumas matérias para a revista, fui à inauguração da Transamazônica, mantive o diálogo com o Mino, apesar das nossas diferenças. Dizem que o Roberto Civita, em sua biografia, fala bem de mim (não tem por que falar mal, fui um bom funcionário). O Mino me mandou cobrir para a Veja a inauguração da Transamazônica. Andei por lá, fiz uma matéria grande sobre a Amazônia, o Hamiltinho estava por lá, e nos reunimos para propor uma pauta especial para a Realidade sobre a Amazônia. Um projeto incrível, conseguimos grande apoio da editora, ficamos meio ano, seis repórteres, na Amazônia, quatro ou cinco grandes fotógrafos, a Cláudia Andujar, que descobriu os ianomâmi (a foto de capa é um ianomâmi), tem belíssimas fotos. O Azevedo, que já estava na clandestinidade, fez um ensaio sobre os índios nessa edição e nós fizemos uma investigação sobre os estrangeiros na Amazônia. Era meio irônica, mas muito interessante. Fomos a todos os lugares, à Serra dos Carajás, onde a US Stell teve uma enorme concessão, e depois teve de negociar com o governo, tinha a bauxita do Pará, fomos nos tais missionários, fizemos uma reportagem belíssima.

Entre os fotógrafos estavam a Cláudia Andujar, o Jorge Love, que fez imagens da Amazônia de cima, aquelas fotos grandes, de árvores, uma trepadeira gigante, uma coisa muito bonita mesmo. A revista foi para as bancas em outubro de 1971 e vendeu, em uma semana, trezentos mil exemplares. Foi uma coisa impressionante. A partir dela surgiu a edição Nossas Cidades, também da Realidade, que foi para as bancas em março de 1972. Também muito bonita, e que muita gente tem até hoje.

RAIMUNDO 3Anos 1970 – Reflexões que desbravam outros caminhos

Com a reflexão sobre as contradições da história do Brasil, Raimundo começa a contar o início de sua própria história – de como começou a ser construído seu legado como decano da imprensa alternativa, democrática e de esquerda no Brasil. É a história dos jornais Opinião (1972) e Movimento (1975) que, fora do foco de interesse deste perfil (o ano de 1968), deixa duas grandes lições, aprendidas com certeza nas lutas democráticas dos anos 1960, acentuadas sobretudo desde 1968.

A primeira lição é a da tolerância – O Opinião, do qual foi editor, tinha um dono, o empresário e político nacionalista Fernando Gasparian (1930-2006), com o qual se desentendeu sobre a maneira de avaliar a política de abertura “lenta, gradual e segura” do general Ernesto Geisel na Presidência da República e, por isto, acabou sendo demitido do Opinião. Mesmo assim manteve relações cordiais com Gasparian, que contribuiu para o próximo projeto de Raimundo, o jornal Movimento, que partilhou em seu conselho editorial muitos dos nomes que figuravam em igual conselho em Opinião.

RAIMUNDO 4A outra lição é o empreendedorismo que mobiliza, entre jornalistas, intelectuais e democratas, os recursos para levar adiante projetos como o do jornal Movimento, um jornal de jornalistas, mantido por uma verdadeira cooperativa formada por cotistas, em todo o Brasil, convencidos da necessidade de um jornal independente que, mesmo submetido à censura desde seu número zero, fosse o altivo e indomado veículo da resistência democrática contra a ditadura.

Receita que hoje, 2018, quase cinquenta anos depois, Raimundo põe mais uma vez em prática para, com o mesmo programa democrático, patriótico e de defesa da elevação do padrão de vida dos trabalhadores, relança a ideia de uma nova publicação em defesa da democracia e por um mundo mais justo. Trajetória que teve início na já distante década de 1960, mas que ele não parou; continua adiante sonhando o mesmo sonho nascido em 1968.

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Entrevista especial para o Blog do Mochila

Postado por Marcos Lima Mochila

 

 

WILSON DAMÁZIOO ex-secretário de Defesa Social Wilson Salles Damázio foi nomeado na quarta-feira (27/2), pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro, para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, como suplente do conselho, com mandato de dois anos. Damázio esteve à frente da SDS/PE até 2013.

Tão logo recebemos essa informação, nós entramos em contato com o nomeado para uma entrevista especial para o Blog. Mesmo com toda a responsabilidade, e ainda se preparando para assumir tão importante cargo, Wilson Damázio não se fez de rogado e nos atendeu, simpático e solícito, como sempre foi.

Wilson Salles Damázio, olindense, entrou na Polícia Federal há mais de 40 anos, tendo começado como agente da Polícia Civil de Pernambuco, sendo concursado posteriormente a agente e delegado federal. Entre 2002 e 2004, assumiu a Superintendência Regional da Polícia Federal, em Pernambuco e ocupou a Coordenadoria Geral de Defesa Institucional do órgão, em Brasília. Damázio realizou diversas operações de combate ao plantio e ao tráfico de maconha no Sertão, a Operação Bisturi (que desarticulou quadrilha internacional de tráfico de órgãos), resolução do caso de falsificação de leite em pó e na prisão dos membros da Máfia do INSS.

P  – Como o senhor recebeu este convite do ministro Sérgio Moro?

R – Com muita honra, em face da deferência do ministro Moro, a quem conheci em 2006 em Curitiba, por ocasião da instalação do Sistema Penitenciário Federal, do qual fui o primeiro diretor. À época, o Dr. Moro era o Juiz Corregedor da Penitenciaria Federal em Catanduvas/PR, a primeira a ser inaugurada.

P – O Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária é responsável pela aplicação da Lei de Execução Penal e das diretrizes da Política Penitenciária Nacional. Portanto, um órgão de extrema importância, sobretudo no atual momento. Quais serão as suas atribuições como suplente?

R – Na qualidade de conselheiro suplente, terei praticamente as mesmas atribuições dos titulares, com direito a participar das reuniões ordinárias, mensais e extraordinárias, a qualquer momento, votar e propor matérias de relevância para o aprimoramento da política criminal e penitenciária nacional, relatar matérias, coordenar comissões, inspecionar unidades prisionais, dentre outras.

P – No seu encontro com o ministro Moro, antes da nomeação – que deve ter ocorrido -, foram mencionadas as linhas de ação do Conselho a partir de agora ou continua com a mesma configuração quando de sua criação, em 1994?

R – Encontrei o Dr. Sérgioo Moro em Salvador, no final do ano passado, em um Simpósio de Combate à Corrupção, tendo o ministro proferido a palestra magna inaugural do conclave. Dentre os assuntos que conversamos não figurou a minha nomeação para o CNPCP. Pelo que sei do ministro, haverá uma mudança radical na política de enfrentamento ao crime e na questão penitenciária. O Conselho é um dos principais fóruns para a qualificação desse debate.

P – O senhor sente no ministro uma convicção sobre o ataque aos pontos mais críticos do país, como a segurança e o combate à corrução?

R – Desde 2006, quando pela primeira vez conversei com o então juiz federal Sergio Moro, fiquei convencido de que estava diante de um servidor público diferenciado, qualificado e comprometido com o enfrentamento ao crime organizado. Agora, como ministro da Justiça e da Segurança Pública e com o Pacote Anticrime que apresentou ao parlamento, tenho certeza que Sua Excelência vai dar um novo rumo à segurança do país e a continuar combatendo de forma intransigente a corrupção e sinto muita determinação, da parte dele, para isso.

P – Como suplente, o senhor continuará na Bahia, indo a Brasília apenas para reuniões, ou o suplente tem que estar presente no dia a dia?

R – O CNPCP tem sede em Brasília e apoio técnico, administrativo e financeiro no Departamento Penitenciário Nacional. O presidente dirige as atividades do Conselho, porém os seus 26 membros titulares e suplentes são obrigados a comparecer às reuniões mensais, bem como quando são convocados por ele. Assim, continuarei com as minhas atividades profissionais na Bahia e estarei em Brasília nos dias das reuniões ou de atividades outras que me forem confiadas pelo presidente do Conselho.

P – A indicação para a sua nomeação partiu do próprio ministro ou de alguém do seu relacionamento?

R – Acredito que foi um consenso entre o ministro e o diretor do Departamento Penitenciário Nacional, delegado de Polícia Federal Fabiano Bordignon, já que ambos conheciam o meu trabalho. Houve um contato prévio comigo, por parte do Dr. Fabiano. depois, num contato do dr. Sérgio Moro, aconteceu o convite e eu aceitei.

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Não são apenas os municípios mais longínquos e mais carentes do Brasil, mas a maioria das cidades, em todos os estados brasileiros, sofre pela falta de um saneamento básico eficiente.

A falta de vontade política aliada a uma burocracia ineficiente faz com que as obras não avancem da maneira esperada e a demora na obtenção do licenciamento ambiental são entraves para a expansão do serviço.

Para debater o assunto, o Blog da Revista TOTAL entrevistou, em Brasília, o Dr. Leandro Mello Frota diretor de administração da Fundação Nacional de Saúde.

Dr. Leandro tem um vasto conhecimento acerca do assunto, sendo um das pessoas mais conceituadas para tratar do tema(*).IMG-20181218-WA0027

  1. Considerando-se o saneamento básico como umas das grandes carências do país, qual o papel da Funasa?

A Funasa fomenta o saneamento básico em municípios com até 50 mil habitantes, ou seja, estamos falando de um número significativo, cerca de 87% das cidades brasileiras.  A Funasa é o órgão do Governo Federal responsável pela implementação de saneamento em áreas rurais de todos os municípios brasileiros, inclusive no atendimento às populações remanescentes de quilombos, assentamentos de reforma agrária, comunidades extrativistas e populações ribeirinhas

Esta Fundação, ao longo de sua história tem se caracterizado por trabalhar em parceria com estados, municípios e outras instituições que atuam frente ao saneamento, especialmente nas comunidades em maior vulnerabilidade social.

Em resumo, o nosso principal papel é atender os pequenos municípios que juntos formam a maior parte do Brasil.

  1. Quais são as ações da Fundação para melhorar a oferta de Saneamento Básico?

A Funasa atende e “ataca” em várias frentes. O papel primordial é a busca pela universalização do saneamento básico no país. São vários os programas de fomento ao saneamento, desde “Melhorias Habitacionais para o Controle da Doença de Chagas” até o “Controle da Qualidade da Água”, totalizando em torno de 12 programas.

Recentemente, a Fundação desenvolveu uma Solução Alternativa Coletiva Simplificada de Tratamento de Água para Consumo Humano (SALTA-z), que transforma água em saúde, respeita o direito das pessoas ao acesso de uma água de qualidade, bem como promove a inclusão social. A SALTA-z tem mudado a vida de muitos brasileiros, especialmente em comunidade ribeirinhas, quilombolas e rurais, que muitas vezes a única fonte de água é a do rio, normalmente contaminada.

Trabalhamos em parceria com os gestores municipais, pois eles conhecem de fato as carências das suas cidades. A Funasa também auxilia junto das Universidades Federais na elaboração dos projetos e dos planos municipais de saneamento, já que muitos municípios não conseguem transmitir para o papel a sua necessidade e a Funasa está sempre de portas abertas a ajudar.

  1. Quais são os gargalos que o país enfrenta no quesito saneamento básico?

São vários os problemas. A falta de vontade política aliada com uma burocracia ineficiente faz com que as obras não avancem da maneira esperada. A demora em obter o licenciamento ambiental é um entrave importante para a expansão do serviço. Não existe infraestrutura mais atrasada no Brasil do que a falta de saneamento básico.

Para piorar, hoje os estados e municípios vivem uma grave crise fiscal e financeira. Os recursos estão escassos para investimento em obras de infraestruturas. A descontinuidade das políticas públicas pelos novos governantes e bem como a corrupção são problemas graves que devem ter uma atenção redobrada.

O Brasil tem aumentado os índices dos serviços de saneamento, mas temos muito ainda a caminhar. Através de estratégias e maior planejamento de gestão estamos suprindo carências e assegurando a saúde pública.

4.Para finalizar, qual a visão do Sr. sobre a importância da Funasa para o país?

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A Funasa é a instituição que dispõe da mais antiga experiência em saneamento básico do país. Esta Fundação é essencial para levar dignidade a milhões de famílias que não tem acesso a água encanada e a esgoto tratado.

O trabalho da Funasa é fundamental para que consigamos avançar com o saneamento básico e saúde ambiental, especialmente frente as comunidades expostas a maior vulnerabilidade social, melhorando não só a saúde da população, mas o desenvolvimento do país como um todo.

Trabalhar tanto o saneamento básico como a saúde ambiental é fundamental e ao mesmo tempo é lamentável, pois estamos falando de um tema que já não deveria existir em nosso país, uma vez que é debatido desde 1640 no Brasil. O Saneamento Básico é avanço civilizatório e infelizmente a falta de saneamento ainda é uma das grandes carências do Brasil.

Diante desse quadro o nosso objetivo é levar o saneamento cada dia mais a sério e avançar. Se o trabalho for levado a sério, tenho certeza que no futuro não vamos precisar mais em nosso país de uma Fundação de fomento de saúde ambiental e bem como de saneamento básico e rural.

(*) Advogado Ambiental desde 2007. Doutorando em Ciência, Tecnologia e Inovação pela UFRRJ, Professor de Direito Advogado Ambiental da Emerj. Professor do Ibmec Agro. Coordenador e Professor de Direito Ambiental da Esa. Foi Diretor de Relações Institucionais da OAB RJ. Especialista do Instituto Millenium. Palestrante e Autor de Livro.

 

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Daniel Isaia – Correspondente da Agência Brasil

A Polícia Federal (PF) prendeu ontem (7), em Curitiba, o policial federal Newton Ishii, conhecido popularmente como Japonês da Federal, que ficou conhecido ao  conduzir presos da Operação Lava Jato. Ele está detido na Superintendência da PF para cumprir mandado expedido pela Vara de Execução Penal da Justiça Federal de Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná.

Newton foi condenado a quatro anos e três meses de prisão em virtude da Operação Sucuri, deflagrada em 2003, que investigava o envolvimento de 19 agentes na entrada de contrabando no país através da fronteira com o Paraguai. A defesa do Japonês da Federal chegou a recorrer da condenação, mas o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o recurso na semana passada.

A partir da Operação Sucuri, foram abertos três processos contra Newton, um na esfera criminal, outro administrativo e um terceiro por improbidade administrativa. Eles tramitam sob segredo de justiça.

A Agência Brasil entrou em contato com o escritório do advogado Oswaldo Loureiro de Mello Júnior, que defende o Japonês da Federal e outros 14 réus da operação, mas o criminalista não retornou as ligações.

Operação Lava Jato

O policial federal Newton Ishii foi citado durante conversa gravada entre o ex-senador Delcídio do Amaral; o filho de Nestor Cerveró, Bernardo Cerveró; e o advogado Edson Ribeiro. O diálogo foi divulgado em novembro do ano passado e levou à prisão de Delcídio

Na conversa, o ex-senador se refere ao agente federal como “policial bonzinho”. Em seguida, Edson afirma que “o japonês” seria o carcereiro da PF responsável pelo vazamento de informações sigilosas da Operação Lava Jato para a imprensa. Minutos depois, o advogado chega a citar o nome de Newton.

Diálogos

Veja abaixo a transcrição dos trechos da gravação em que o agente é citado:

DELCÍDIO: Alguém pegou isso aí e deve ter reproduzido. Agora quem fez isso é que a gente não sabe.

EDSON: É o japonês. Se for alguém, é o japonês.

DIOGO: É o japonês bonzinho.

DELCÍDIO: O japonês bonzinho?

EDSON: É. Ele vende as informações para as revistas.

BERNARDO: É, é.

DELCÍDIO: É. Aquele cara é o cara da carceragem, ele que controla a carceragem.

BERNARDO: Sim, sim.

(…)

EDSON: Só quem pode tá passando isso, Sérgio Riera.

BERNARDO: Mas eu já cortei…

EDSON: Newton e Youssef.

DELCÍDIO: Quem que é Newton?

BERNARDO: É o japonês.

EDSON: E o Youssef, só os dois. [vozes sobrepostas] O Sérgio, porque o Sérgio traiu…

BERNARDO: Sim. Ele fez o jogo do MP, assinou. Tá..tá

(…)

EDSON: Quem é que poderia levar isso pro André?

BERNARDO: Eu acho que é carcereiro. O cara dá 50 mil aí pra você.

EDSON: A gente num entende, pô!

BERNARDO: Carcereiro, Newton… os caras são muito legais.

 

 

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O cantor e compositor Josildo Sá nasceu na cidade de Floresta e cresceu em Tacaratu, à margem do Rio São Francisco, no Sertão de Pernambuco. Filho do cantor e exímio sanfoneiro Agostinho de Floresta, Josildo tem uma forte ligação cultural com sua região, embora há muitos anos, esteja radicado no Recife. Nos últimos dias, seu nome vem sendo ventilado para entrar na vida política, candidatando-se a prefeito de Tacaratu. Ele disse em entrevista exclusiva ao jornalista Márcio Maia, do Blog Revista TOTAL, que nunca pensou em se tornar político e que vai continuar sua carreira de cantor, embora muitos amigos estão manifestando apoio, depois qe ele se filiou ao PV.

Revista TOTAL – Como foi sua infância às margens dos Rios São Francisco e Pajeu e do Riacho do Navio?

Josildo Sá – Minha infância em Tacaratu foi muito boa. Tive muita liberdade para, junto com muitos amigos, correr por aquelas terras, caçar passarinho, pescar e tomar banho nos rios, nos períodos de chuva. Também foi muito importante, as lições que aprendi para conviver de forma harmoniosa com a natureza, respeitando sua força, especialmente a das águas. Também tive muitos amigos em Floresta, onde ia constantemente.

 

RT – E a questão cultural?

JS – A cultura do Sertão de Pernambuco é muito rica e muito forte, principalmente às margens do Rio Pajeu. Convivi com muitos poetas, cantadores, músicos de excelente qualidade, embora a maioria não tivesse muita teoria. A maioria deles era autodidata, mas todos de enorme capacidade de produção artística. Em Tacaratu e nas Caraibeiras, vi e ouvi muita gente boa mostrar suas obras primas sem qualquer preocupação com retorno financeiro. Queriam apenas externar os seus trabalhos. Aqueles contatos foram importantíssimos para minha formação cultural.

 

RT – E como você entrou na vida artística?

JS – Eu nunca fui um aluno excepcional, porém sempre conseguia ser aprovado com boas notas. Filho de um música profissional famoso e muito qualificado (Agostinho de Floresta), comecei a ser convidado para participar de festas, reuniões artísticas e as famosas serestas, muito comuns em Floresta nas décadas de 60 e 70. Muita gente achava que eu cantava bem e comecei a me entusiasmar até passar a receber pequenos cachês por minhas apresentações.

 

RT – Quais foram suas raízes na música?

JS – Além dos violeiros e cantadores das feiras e praças públicas, cresci ouvindo os grandes nomes da MPB naquele período: Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Ari Lobo, sem contar Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Altemar Dutra, Valdick Soriano e outros monstros sagrados. Ouvia as músicas no radio e também nos alto-falantes das festas de rua, que chamavam a atenção de toda a população. Também era muito comum naquela época, a passagem dos circos populares, que sempre tinham muitos cantores.

 

RT – Você tem se mostrado um intérprete muito versátil…

JS – Realmente. É porque a minha base musical é muito vasta. Gosto muito de cantar forró, baião, xote e marchinhas juninas. Também sou apaixonado pelo samba de latada. Por sinal, considero o meu trabalho com o inesquecível Paulo Moura, um dos mais importantes da minha carreira. Paulo era um músico admirável e com quem tive um imenso prazer de trabalhar.

 

RT – E como se deu sua entrada no carnaval do Recife?

JS – Foi uma coisa inesperada e que me deu muitas alegrias. Fui convidado pela dupla de compositores Nuca e Eriberto, por sinal dois excelentes compositores, para cantar a música deles que ia concorrer ao concurso de frevos do Galo da Madrugada. A música era uma homenagem ao centenário de Seu Luiz. Foi uma experiência maravilhosa, pois o desfile do Galo é algo indescritível, com uma energia fortíssima. Você ver e ouvir milhares de pessoas cantando juntas, é uma coisa maravilhosa.

 

RT – E essa história de você entrar na política?

JS – Isso é um assunto que começou a ser comentado na minha cidade, por meus amigos, depois que eu me filiei ao Partido Verde. Essa filiação foi uma coisa ocasional que alguns amigos me pediram porque eles queriam implantar o partido no município e precisavam de apoio. Como o PV é um partido que tem uma filosofia com que me identifico muito, terminei aceitando. Mas, não existe nada de positivo, pois o que eu sou mesmo é artista.

 

RT – Se por acaso, você se elegesse prefeito de Tacaratu, o que você faria?

JS – Eu acho que seria um prefeito voltado para a cultura e também para melhorar as condições de vida da população mais carente. O orçamento da Prefeitura de Tacaratu é muito pequeno, mas eu procuraria direcionar os recursos para a produção agrícola, dos bodes e também incrementaria a produção de peixes do Rio São Francisco. Outro ponto seria valorizar a cultura popular e a produção do artesanato do distrito de Caraibeiras, que tem um grande potencial e precisa de uma maior divulgação. Mas, isso são só ideias, porque o que eu quero mesmo é dar segmento a minha carreira de cantor.

Para João Paulo Lima, a Sudene precisa assumir um papel ainda maior para compreender as dificuldades e os potenciais do NordesteTársio Alves/Divulgação Sudene

Agência Brasil –  Criada no governo do presidente Juscelino Kubitschek, extinta em meio a denúncias de corrupção e desvio de verbas e recriada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) busca se reafirmar como um dos principais órgãos indutores do desenvolvimento socioeconômico da região. Vinculada ao Ministério da Integração Nacional e sediada no Recife, a Sudene atua nos nove estados do Nordeste e no norte dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo.

Para além dos incentivos fiscais e financiamentos de grandes projetos, o novo superintendente do órgão, João Paulo Lima, defende que a Sudene precisa assumir um “papel ainda maior” para melhor compreender as características, as dificuldades e os potenciais do Nordeste. Para ele, a pobreza e a pouca participação da região nos resultados da economia precisam ser vistas com mais atenção. “O desenvolvimento do Nordeste tem que suprir essas lacunas para levar a região a superar o estágio em que está vivendo.”

Natural de Olinda (PE) e graduado em economia, João Paulo Lima é o quarto superintendente da chamada “nova Sudene”, que foi recriada em 2007 por meio da Lei Complementar 125. Filiado ao PT desde 1979, foi vereador do Recife, deputado estadual em Pernambuco por três legislaturas e também prefeito da capital pernambucana por dois mandatos seguidos, entre 2001 e 2009. No ano seguinte, foi eleito deputado federal por Pernambuco.

Nesta entrevista exclusiva concedida por telefone à Agência Brasil, João Paulo Lima destaca os desafios da sua gestão, iniciada no dia 28 de julho. Ao resgatar o papel de Juscelino Kubitschek e de Celso Furtado na compreensão do papel do Nordeste, o superintendente cita os recursos disponíveis que aguardam projetos, minimiza o debate sobre o corte de verbas no Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), incluído na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 87, e defende o uso de incentivos fiscais como instrumento de desenvolvimento regional, e não de conflito entre os estados.

Agência Brasil: A desigualdade regional, principal questão para a criação da Sudene em 1959, ainda é uma queixa no Nordeste. Por que isso ainda não foi superado? Quais os principais empecilhos para que a região tenha um desenvolvimento socieconômico pleno?
João Paulo Lima: Desde a sua fundação, em 1959, a Sudene sempre cumpriu um papel importante no desenvolvimento regional. Parte significativa do que o Nordeste é hoje – o Nordeste não é qualquer coisa, há muitas delegações estrangeiras que chegam aqui e ficam muito impressionadas com o que o Nordeste é – se deve muito a Juscelino Kubitschek [presidente da República de 1956 a 1961] e ao próprio Celso Furtado [responsável pela criação da Sudene e primeiro superintendente do órgão], que tiveram uma visão e uma compreensão de que o Nordeste tem que se desenvolver e não perder o trem da história do desenvolvimento brasileiro. Agora, é importante também lembrar que a Sudene foi extinta em 2001, pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, e só retorna em 2007 a partir do governo do presidente Lula. E ela volta com características diferentes. Ela hoje discute as políticas de desenvolvimento regional e cumpre um papel importante na implantação de projetos estruturadores. Um exemplo é um projeto que é referência aqui no Recife, da Odebrecht Ambiental, na área de saneamento de toda a região metropolitana, de mais de R$ 3 bilhões. A Sudene entra com R$ 400 milhões por meio do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE). A Sudene cumpre um papel importante mas, acima de tudo, tem uma visão estratégica do Semiárido brasileiro.

Agência Brasil: O senhor falou a respeito da extinção e da recriação da Sudene. Para o senhor, o que é essa nova Sudene? No que ela é diferente da que foi extinta e o que as duas ainda hoje têm em comum?
Lima: A Sudene tinha um papel muito grande aqui, de planejar, de estudar, de fazer pesquisas, de ter mapas cartográficos da região, de fazer estudos, pesquisas, mas também da execução das ações, como perfurações de poços. Hoje em dia, até porque também é importante lembrar que os estados nordestinos ampliaram sua capacidade de organização e de intervenção dentro do próprio estado, a Sudene retoma com um objetivo maior de planejamento e de análise de projetos através do FDNE [Fundo de Desenvolvimento do Nordeste], que é uma verba orçamentária que, este ano, é de R$ 2 bilhões para financiar projetos estruturadores. A Sudene também define as políticas do FNE [Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste], que tem R$ 13,3 bilhões, além dos incentivos fiscais, que podem reduzir até 75% do Imposto de Renda, garantir 30% de reinvestimento do imposto de renda devido e a redução de 25% no custo do frete. Nós entendemos que são alavancas muito importantes. Agora, acho que temos que retomar um pouco mais um planejamento participativo e acredito que um outro elemento, e falo com a experiência de quem foi prefeito da cidade do Recife por oito anos, é fazer uma discussão também sobre a pobreza do nosso Brasil e a pobreza do Nordeste. A nossa região, apesar dos grandes avanços obtidos, é uma região pobre e a participação do Nordeste ainda é muito pequena na produção, na exportação. Cabe à Sudene aprofundar, discutir e propor alternativas dentro do programa nacional de desenvolvimento. O desenvolvimento regional e o desenvolvimento do Nordeste têm que suprir essas lacunas para levar o Nordeste do Brasil a superar o estágio em que está vivendo.

Agência Brasil: O senhor afirma que um dos desafios da sua gestão é recuperar a importância da Sudene. Que herança o senhor recebe das três últimas gestões e o que ainda precisa ser feito para alcançar isso?
Lima: Eu acredito que as últimas gestões deram a sua contribuição, até porque nós temos projetos significativos, discutidos e aprovados, como os R$ 2,2 bilhões que saem com a aprovação aqui da Sudene para, por exemplo, a construção da Fiat, que é uma referência automotiva hoje no Brasil, em Pernambuco e no Nordeste. Agora, o que eu acho que faltou um pouco foi justamente a capitalização dessas iniciativas para que o Brasil e o Nordeste possam ter a dimensão das ações do governo federal aqui na região, e acredito que isso passou muito distante, até porque a maioria das pessoas não tem essa informação.

Agência Brasil: O senhor falou sobre incentivos, que são um dos instrumentos de ação da Sudene. No entanto, esse tipo de benefício acabou gerando a chamada guerra fiscal, na qual os estados viravam “concorrentes” na atração desses investimentos. O que é possível ser feito para que os incentivos fiscais não causem essa desagregação na região?
Lima: Nós temos a clara compreensão de que, para haver um estímulo ao desenvolvimento da região, tem que haver incentivos, senão isso não vai atrair a presença do empresariado. Agora, é lógico que tem uma medida, desde que não se provoque uma guerra fiscal que venha a impedir inclusive a viabilidade de recursos. Então, eu acho que isso é vencido com a visão de Brasil, de projeto de Brasil, de desenvolvimento regional como um todo, e não como fruto do estabelecimento de uma guerra fiscal.

Agência Brasil: Vinte municípios de estados nordestinos estudam a criação do G20 Semiárido. Cidades do Ceará, da Bahia, Paraíba e de Pernambuco querem buscar alternativas para as dificuldades e impulsionar debates sobre questões políticas relacionadas à promoção da estabilidade financeira, do desenvolvimento social e econômico. Não há capitais entre esses municípios. Qual a importância desse tipo de organização para o interior dos estados do Nordeste?
Lima: Fui procurado pelo prefeito de Petrolina, Júlio Lóssio, que me convidou para participar desse encontro e eu participarei com muito orgulho. E o que ele me falou do objetivo desse encontro é que ele quer garantir essa articulação para que esses municípios, que eles avaliam que têm um case, que tem uma referência no desenvolvimento, no crescimento, possam ajudar outros municípios que encontram mais dificuldades. Então, acho o G20 uma grande iniciativa e, a meu ver, a Sudene tem que se articular com os prefeitos dessa região.

Agência Brasil: Como a nova Sudene pode atuar para evitar a priorização de investimentos em capitais, como ocorreu antigamente?
Lima: O que nós temos que ter é justamente o planejamento, os estudos de viabilidade. A Sudene tem que cumprir um papel ainda maior, no estudo mais profundo e participativo do Nordeste, de suas semirregiões, para que possa estimular, inclusive, o setor empresarial na apresentação de projetos de desenvolvimento, além do próprio governo federal, como já vem fazendo, em obras estruturadoras, como a Transposição do Rio São Francisco, como a Transnordestina, como a Hemobras (Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia, sediada em Brasília e com filial no Recife), como foi a própria duplicação da BR-101 (rodovia longitudinal que liga o Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul pelo litoral brasileiro; também chamada de Rodovia Translitorânea). Então, acredito que essas coisas têm que se complementar e falar entre si.

Agência Brasil: O Conselho Deliberativo (Condel), órgão máximo de planejamento estratégico da Sudene, não se reúne desde 2013. O que está pendente de resolução desde essa época que será retomado agora a partir da primeira reunião do grupo?
Lima: Uma das grandes discussões vai ser o novo perímetro do Semiárido brasileiro, a partir dessas mudanças climáticas. Quero chamar também uma grande discussão sobre os efeitos do El Niño no desenvolvimento da região e acredito que o Condel vai cumprir um papel muito importante.
Agência Brasil: O senhor citou o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) que, no primeiro semestre deste ano, recebeu R$ 3,5 bilhões, R$ 200 milhões a mais do que no mesmo período do ano passado. No entanto, a PEC 87, de autoria do Executivo e em tramitação no Congresso, tem o objetivo de retirar 30% dos recursos anuais desse fundo até 2023. Em que medida esse corte pode afetar o trabalho da Sudene e também do Banco do Nordeste, que conta com esse fundo para financiar investimentos em vários setores produtivos?
Lima: O que nós temos que entender é que o Nordeste está incluído dentro de um projeto estratégico de Brasil. E é lógico que, quando o governo faz uma medida como essa, ele tem a clara certeza do papel estratégico que tem essa medida. Agora, de qualquer forma, vai caber ao Congresso Nacional – e eu digo com experiência, porque fui deputado federal por quatro anos – definir se será feito, se será reduzido. Eu acho que a fase agora é uma fase de negociação e entendimentos.

Agência Brasil: No ano passado, foi concluído o Plano de Ciência, Tecnologia e Informação para o Desenvolvimento Sustentável do Nordeste. Entre outras medidas, o plano inclui a criação de ambientes de inovação, parques, polos de tecnologia e o apoio à implantação de centros de pesquisas privados. A Sudene já está afinada com esse tipo de investimento?
Lima: Já há uma discussão, ela está no Ministério de Ciência e Tecnologia e é um dos pontos que estamos querendo garantir no próximo Condel. Mas ainda não está confirmado, não. Mas é lógico que é um tema extremamente importante para o desenvolvimento da região.

*Entrevista feita nos estúdios da Universitária FM, em Fortaleza

 

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