RAIMUNDO

ENTREVISTA

Por Christiane Brito

Postado por Marcos Lima Mochila

 

 

“Costumo dizer que o regime militar não fez nada de bom para o Brasil, mas me pôs em outro rumo” – foi com este comentário que o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira resumiu a trajetória que, nos anos 1960, fez dele o decano do jornalismo político e da imprensa alternativa no Brasil. Em 1968 ele trabalhou na primeira edição da revista Veja e, apesar da censura, com apoio de colegas como Mino Carta, escreveu matérias de denúncia histórica. Com isto deu vazão a uma ousadia que até hoje define o seu jornalismo. Aos 78 anos há idealismo de sobra!

Nesta conversa franca e bem-humorada, Raimundo fez um mergulho nesse passado que já se mede em cinco décadas. Contou suas primeiras ações, que podem ser entendidas como de enfrentamento à “autoridade” – e aos que a encarnam mais visivelmente: os militares.

Leia aqui os principais trechos de suas falas.

Em janeiro de 1965 trabalhei na revista Médico Moderno como jornalista profissional e, depois, na revista Máquinas e Metais, da Editora Abril. Em Máquinas e Metais tinha um sujeito do Partidão, que estava com o controle de O Dia, um jornal do Adhemar de Barros que o Chagas Freitas acabou tomando um pedaço. Só sei que estava abandonado. Íamos, o Paulo Canabrava e eu, para o Bom Retiro e fazíamos o jornal, que era diário, com um bando de telegramas. Aí fui começando a achar que o jornalismo podia ser minha profissão. Tanto Médico Moderno quanto Máquinas e Metais pagavam bem, e logo em seguida me registrei como jornalista profissional. Fui me dando bem, mas ainda meio fora desse trilho da esquerda.

Numa certa altura, com o Zé Arantes, pela influência que tinha com o Zé Dirceu, no movimento estudantil, fizemos um semanário para a Filosofia, um semanário popular, acho que foram só sete números, chamado O Amanhã. Fui o chefe de redação, tinha uma equipe de pesquisa que era o hoje historiador Ricardo Maranhão e seus maranhetes, que faziam suplementos dizendo assim: a Bolívia mostra o caminho; tinha matérias sobre luta armada na América Latina ou os golpes no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Tínhamos um repórter que cobria o movimento sindical e nos fazia matérias meio clandestinamente. O Amanhã foi um jornal de sucesso, vendia em bancas de São Paulo sete mil exemplares. Foi um jornal de estudantes feito para o grande público. A Carta Capital não vende isso hoje.

O jornal durou até que a repressão caiu em cima. Foram na gráfica, fizeram ameaças e o pessoal suspendeu o jornal. Nessa turma tinha – a gente fazia junto com o pessoal do Tusp, na rua Hadock Lobo – o Tonico Ferreira (Antonio Carlos Ferreira), que depois foi secretário do Opinião e do Movimento, ficou com a gente durante muitos anos; o Bernardo Kucinski, que fazia Física comigo, também foi escrever nesse jornal, tinha um bando de gente… nunca acompanhei muito bem, mas tinha uma polêmica entre AP (Ação Popular), PCB, esses dissidentes tinham uma briga entre eles.

Em 1967 fui para a Folha da Tarde. Havia um ascenso no movimento estudantil e no movimento de massas contra a ditadura – têm até livros sobre o que foi a Folha da Tarde, que formou uma redação de esquerda, trouxe para dirigir o Miranda Jordão, que tinha sido diretor da Última Hora no Rio, com um redator chefe da turma dele. Eu era o editor de texto. Estavam também o Chico Caruso, o Paulo Caruso, o Tonico Ferreira e o Frei Betto, que era o chefe de reportagem. Foi um jornal que, naquelas brigas estudantis, estava do lado do povo da Maria Antônia. Não me lembro quanto durou, mas não foi muito, foi um período curto. O quadro estava se aproximando de 1968 e, em certa altura, o Frias (empresário Octávio Frias de Oliveira, dono da Folha de S.Paulo) entregou o jornal para a repressão. Toda a redação, e o jornal passou ser o jornal que prende um cara, tortura e publica o depoimento dele. Realmente um horror. Tive amigos que ficaram no jornal, e disseram que os caras entravam armados na redação, punham o revólver na gaveta… o Frias se mudou para um bunker dentro da Folha, com medo, e aí entregou o jornal para aplacar a repressão.

Me aproximei do pessoal da revista Realidade por causa do trabalho junto ao movimento estudantil. Alguém mostrou para o Paulo Patarra, que era o diretor de redação da Realidade. Fiz dois textos como freelancer, um em que me saí mal. O Miltainho (Milton Severiano da Silva) leu o texto e disse: “Que pena, você é tão amigo nosso!”. Foi um fracasso! O Miltainho foi um dos grandes copidesques. Ele, o Sergio de Souza e o Otoniel (dos Santos Pereira) foram os três maiores copidesques que já conheci na história do Brasil.

Fiz um segundo freelancer com o (Carlos Alberto) Azevedo. Ele chefiou uma equipe de reportagem para documentar a prostituição no Brasil. E fui para a zona de Bauru, que era famosa, frequentada inclusive pelo Adhemar de Barros. Fui o repórter e a Cláudia Andujar a fotógrafa. Fizemos uma boa matéria, recebida com aplausos, e eu achei um caminho para entrar naquela turma.

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1968, revista Veja: denúncia da tortura

Com meu currículo – tinha quinto ano de Engenharia e diploma de Física –, entrei na primeira equipe da revista Veja para fazer Ciências. E tive sorte. Virei um jornalista profissional e político por acidente, um conjunto de acidentes.

A revista Veja saiu vendendo setecentos mil no primeiro número, e menos de um ano depois vendia apenas quinze mil por semana. Foi um fracasso rotundo. E, buscando fórmulas na editoria de Ciências, com o Roberto Pereira, inventamos um fascículo para sair em dez semanas e o último ser a descida do homem na Lua. Fomos contando a história, resultou num livro, bem ilustrado, bonito, bem feito, que conta a disputa entre russos e americanos, os foguetes etc. O povo esperava o negócio da Lua, e foi crescendo, ajudou a revista a vender, sair do buraco. E me deu certa fama. Sempre ali com o Mino (Carta) fechando. Acabou que fui, não para a Lua, mas para os EUA. No Cabo Canaveral, entrevistei o (Werner) Von Braun no Alabama, fui ver os astronautas que ficaram por aqui.

Ao voltar o (presidente general Artur da) Costa e Silva tinha tido um derrame cerebral, isso já em agosto de 1969, e não tinha sucessor – quem escolhia era quem saía e ele saiu por um derrame cerebral. E aí foi uma quizumba. Os milicos sem saber o que fazer. Surgiram três candidaturas. O Mino me chamou e disse: monta uma equipe de reportagem e vai cobrir. A gente não tinha percebido, mas não tinha censura, os milicos estavam brigando entre si. Então fizemos três grupos. Um para acompanhar a candidatura do (general) Albuquerque Lima, outro que acompanhava a candidatura do (general) Médici, que era o Dirceu Brizola, e outro que acompanhava a candidatura do (general) Geisel, que era o Élio Gaspari. Todos excelentes repórteres. A gente ia segunda-feira para o Rio, voltava na sexta e fazíamos uma reunião. Eu distribuía os ganchos, escrevia. Foi uma cobertura melhor do que as coberturas de Veja recentes sobre sucessão presidencial porque foi sem censura. A venda da revista começou a subir em banca e nossa fama aumentando. Para se ter uma ideia, o Élio, do conhecimento da turma do Golbery (do Couto e Silva), acabou herdando seus arquivos, e fez sua fantástica história da ditadura, com documentos – e agora vai divulgar os áudios nas edições futuras. Foi uma coisa espetacular.

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Mais espetacular ainda foi o episódio seguinte. As pessoas não acreditam! A grande matéria sobre torturas no regime militar foi feita no governo Médici, em dezembro de 1969. Ele tomou posse e, logo nas primeiras semanas, o Dirceu, que tinha coberto aquilo, se tornou pessoa completamente grata dentro do Palácio, onde ouviu de um assessor: “O Médici disse que não vai admitir tortura”. Ele me ligou, eu falei para o Mino, que disse: “Vamos fazer uma capa”, que teve como manchete aquela frase: “O presidente não admite torturas”. A imagem usada foi uma foto da Praça dos Três Poderes (Veja, 3 de dezembro de 1969). Com aquela revista, um dos nossos repórteres chegou para o ministro da Justiça e disse: “Olha, o presidente disse que não admite tortura. O que o senhor vai fazer?”. Ele respondeu “vou apurar”. O ministro da Justiça disse que vai apurar as torturas. Então saímos para apurar. A Veja fez um dossiê de todo o Brasil com casos de tortura. Eu peguei um texto do Raymundo Faoro para abrir a matéria, ficou uma maravilha. Essa edição tem na capa a imagem da tortura medieval. E conta grandes histórias de tortura (Veja, 10 de dezembro de 1969). O presidente da Editora Abril, Victor Civita, mandou-a para o governo para mostrar que nosso empenho era ajudar a apurar a tortura. E para livrar o dele também…

A censura era feita por meio de avisos, o censor ligava para a redação da Folha, O Globo, para os grandes jornais… a história de que a Veja ia apurar a tortura correu ao longo da semana. Quando chegou sexta-feira o censor ainda não tinha avisado a Veja. O Mino mandou desligar os telefones da redação. Você vê, você luta com todos os recursos – o Mino desligou os telefones da redação, que trabalhou todo o fechamento sem ouvir… porque se ouve, avisam a redação, avisam a empresa, e você não podia fazer… Foi nosso momento de glória.

Mas existiam outros problemas também. O repórter dessas grandes revistas sempre adquire uma relação de proximidade com essas grandes figuras, e eu tinha uma relação com o João Paulo dos Reis Veloso (ministro do Planejamento) que, não sei o porquê, me considerava amigo dele, e fiz uma falseta com ele, das piores. Eu o entrevistava no Rio. Tinha uma briga de foice no governo entre ele e o Delfim (Netto). Ele tinha feito o II PND, e tinha saído uns números do IBGE que divergiam dos números que tinham lá e, na minha frente, com a caneta, corrigiu aquilo. Eu traiçoeiramente fiz uma ilustração que dizia: o PIB foi de tanto a tanto em 5 minutos. E o Mino fez uma capa detonando com ele. Era um shazam, por baixo do pano tinha uma grande briga. Ele ia se lascar… e a matéria contava. Na redação, um dos editores de economia era o Aloizio Biondi, uma pessoa do bem, era um “anti-delfim”, e ele não gostou: a matéria do jeito que estava era “anti-veloso”. Ele ficou puto e exigiu que a revista publicasse sua carta abrindo a seção de Brasil. Isso deu fofocas. Tinha uma turma que achava que eu era muito esquerdista, chegaram até a inventar que eu tramava contra o Mino para pegar o lugar dele. Tudo sem o menor fundamento.

Minha saída se deu pela seguinte razão – e não pelas fofocas: na biografia do Mino, chamada Castelo de Âmbar, que é um roman à clef, os personagens estão disfarçados; nele apareço como Severino, com a história de que tinha uma trama, feita pelo Severino (o Mino diz que não acreditava que eu estivesse na trama, mas nessa turma de amigos dele tinha um secretário de redação que era de uma corrente muito reformista, não gostava de mim, acho que foi ele que plantou essa história contra mim). O fato é que teve uma discussão entre nós, o Mino e eu, e eu disse: “Posso fazer várias autocríticas, vou lá e o entrevisto, ele diz o que quiser, e publico, sem problemas. Mas abrir minha seção com a carta dele não pode, desmoraliza a revista e a mim”. Fui então transferido para a editoria de Cultura, fizemos algumas edições, fizemos umas coisas até boas, fiquei amigo de alguns caras dessa área – o Tárik de Souza, o Leo Gilson Ribeiro. E aí houve uma condição para eu ser demitido, pedi para o Mino me demitir, me deu uma bolada, comprei a casa da Freguesia do Ó…

Cobrir a inauguração da Transamazônica

Saí da Veja, mas continuei fazendo algumas matérias para a revista, fui à inauguração da Transamazônica, mantive o diálogo com o Mino, apesar das nossas diferenças. Dizem que o Roberto Civita, em sua biografia, fala bem de mim (não tem por que falar mal, fui um bom funcionário). O Mino me mandou cobrir para a Veja a inauguração da Transamazônica. Andei por lá, fiz uma matéria grande sobre a Amazônia, o Hamiltinho estava por lá, e nos reunimos para propor uma pauta especial para a Realidade sobre a Amazônia. Um projeto incrível, conseguimos grande apoio da editora, ficamos meio ano, seis repórteres, na Amazônia, quatro ou cinco grandes fotógrafos, a Cláudia Andujar, que descobriu os ianomâmi (a foto de capa é um ianomâmi), tem belíssimas fotos. O Azevedo, que já estava na clandestinidade, fez um ensaio sobre os índios nessa edição e nós fizemos uma investigação sobre os estrangeiros na Amazônia. Era meio irônica, mas muito interessante. Fomos a todos os lugares, à Serra dos Carajás, onde a US Stell teve uma enorme concessão, e depois teve de negociar com o governo, tinha a bauxita do Pará, fomos nos tais missionários, fizemos uma reportagem belíssima.

Entre os fotógrafos estavam a Cláudia Andujar, o Jorge Love, que fez imagens da Amazônia de cima, aquelas fotos grandes, de árvores, uma trepadeira gigante, uma coisa muito bonita mesmo. A revista foi para as bancas em outubro de 1971 e vendeu, em uma semana, trezentos mil exemplares. Foi uma coisa impressionante. A partir dela surgiu a edição Nossas Cidades, também da Realidade, que foi para as bancas em março de 1972. Também muito bonita, e que muita gente tem até hoje.

RAIMUNDO 3Anos 1970 – Reflexões que desbravam outros caminhos

Com a reflexão sobre as contradições da história do Brasil, Raimundo começa a contar o início de sua própria história – de como começou a ser construído seu legado como decano da imprensa alternativa, democrática e de esquerda no Brasil. É a história dos jornais Opinião (1972) e Movimento (1975) que, fora do foco de interesse deste perfil (o ano de 1968), deixa duas grandes lições, aprendidas com certeza nas lutas democráticas dos anos 1960, acentuadas sobretudo desde 1968.

A primeira lição é a da tolerância – O Opinião, do qual foi editor, tinha um dono, o empresário e político nacionalista Fernando Gasparian (1930-2006), com o qual se desentendeu sobre a maneira de avaliar a política de abertura “lenta, gradual e segura” do general Ernesto Geisel na Presidência da República e, por isto, acabou sendo demitido do Opinião. Mesmo assim manteve relações cordiais com Gasparian, que contribuiu para o próximo projeto de Raimundo, o jornal Movimento, que partilhou em seu conselho editorial muitos dos nomes que figuravam em igual conselho em Opinião.

RAIMUNDO 4A outra lição é o empreendedorismo que mobiliza, entre jornalistas, intelectuais e democratas, os recursos para levar adiante projetos como o do jornal Movimento, um jornal de jornalistas, mantido por uma verdadeira cooperativa formada por cotistas, em todo o Brasil, convencidos da necessidade de um jornal independente que, mesmo submetido à censura desde seu número zero, fosse o altivo e indomado veículo da resistência democrática contra a ditadura.

Receita que hoje, 2018, quase cinquenta anos depois, Raimundo põe mais uma vez em prática para, com o mesmo programa democrático, patriótico e de defesa da elevação do padrão de vida dos trabalhadores, relança a ideia de uma nova publicação em defesa da democracia e por um mundo mais justo. Trajetória que teve início na já distante década de 1960, mas que ele não parou; continua adiante sonhando o mesmo sonho nascido em 1968.

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