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(Foto: Da esquerda para a direita, em pé, José Clodoveu de Arruda Coelho Neto (PT), ex-prefeito de Sobral (CE); e os prefeitos Rodrigo Neves (PDT), de Niterói (RJ); Edvaldo Nogueira (PCdoB), de Aracaju (SE); Jonas Donizette (PSB), de Campinas (SP); Carlos Miranda (MDB), de Paraty (RJ); Miguel Coelho (PSB), de Petrolina (PE); Duarte Nogueira, de Ribeirão Preto (SP); sentados, Firmino Filho (PSDB), de Teresina (PI); Renata Sene (PRB), de Francisco Morato (SP); Paula Mascarenhas (PSDB), de Pelotas (RS); Raquel Lyra (PSDB), de Caruaru (PE) (Briana Baldacci/Divulgação)

A disputa à Presidência da República em 2018 tem dado motivos para o desânimo com a falta de preparo das lideranças políticas brasileiras. Mas, fora do circo eleitoral, há sinais de gente disposta a estudar e se preparar para ajudar a tornar o Estado mais eficiente. Exemplo disso foi a viagem de uma comitiva de prefeitos, servidores públicos e empresários que, em julho, passou por um curso de gestão pública na Universidade Colúmbia, em Nova York.

Patrocinado pela ONG paulistana Comunitas, que em 2012 criou o programa Juntos, dedicado a montar projetos inovadores em prefeituras, o grupo foi formado por prefeitos de várias cidades do país e, de Pernambuco, participaram Raquel Lyra, prefeita de Caruaru, e Miguel Coelho, prefeito de Petrolina. Estavam também na turma nomes da elite empresarial brasileira, como Elie Horn, fundador da construtora Cyrela, e Carlos Jereissati Filho, presidente do grupo de shopping centers Iguatemi. Na condição de mentores do Juntos, eles foram abrir a cabeça para problemas incomuns ao dia a dia de seus negócios.

Em cinco dias de aulas, acompanhadas por EXAME, a turma trocou experiências com altos funcionários públicos de metrópoles americanas sobre como resolver desafios urbanos como criminalidade e mal uso de espaços públicos. Focado em estudos de caso, o curso lembrou um treinamento de executivos do setor privado. Numa aula, os alunos viram como a Prefeitura de Memphis, uma das cidades mais violentas dos Estados Unidos, está reduzindo a criminalidade ao ensinar a jovens negros de famílias carentes os fundamentos da música soul criada lá nos anos 60. Também foi realizada uma visita ao

Compstat, banco de dados da polícia de Nova York cujo mapeamento das áreas barras-pesadas foi essencial para direcionar esforços policiais — e reduzir o crime a taxas mínimas históricas.

Em outra sessão, os prefeitos saíram pelo campus da universidade, bloquinho e caneta à mão, para anotar a movimentação de pedestres e analisar obstáculos aos transeuntes, como a aglomeração na portaria e a falta de sombra no pátio central da universidade — um suplício no calorão do verão nova-iorquino — para, depois, ver como algumas cidades facilitam a vida de quem anda a pé. Os alunos também conheceram a lógica por trás da Central Park Conservancy, ONG que administra o parque mais famoso do mundo. Desde os anos 80, a ONG já captou mais de 800 milhões de dólares de doadores privados para o Central Park e outros parques locais — hoje ela paga o salário de jardineiros e vigilantes desses espaços públicos.

Na agenda, deu tempo ainda de a turma ver como autoridades americanas lidam com denúncias de corrupção estatal — uma das aulas mais concorridas com a relevância do tema no Brasil da Lava-Jato. Na aula da promotora federal Rose Hearn, uma espécie de “xerife anticorrupção” durante o mandato do bilionário Michael Bloomberg na Prefeitura de Nova York, de 2002 a 2013, a turma aprendeu como canais de denúncia contra servidores corruptos desbarataram esquemas fraudulentos e economizaram 500 milhões de dólares aos cofres públicos.

Mesmos problemas recentes na vida dos políticos ali presentes, como o uso inteligente das redes sociais, receberam atenção. Os brasileiros viram, por exemplo, que uma linguagem informal eleva a chance de conquistar seguidores.

Se o curso em Nova York fosse uma política pública, seria possível dizer que a iniciativa já trouxe resultados para o cidadão — e a um custo-benefício invejável em meio à gastança típica da máquina pública. A semana de aulas custou 5.500 dólares por estudante, arcados pela Comunitas com recursos de doadores privados. Passagens e hospedagens saíram do bolso dos alunos. Para alguns deles, o investimento serviu para ver novas formas de tocar a máquina pública. Ou, no jargão da iniciativa privada, “pensar fora da caixa”.

Para Firmino Filho, prefeito de Teresina, as andanças por Colúmbia ajudaram a olhar as ruas para além dos carros. O resultado: uma ideia antiga de instalar lombadas eletrônicas em avenidas movimentadas de Teresina agora deverá incluir outras medidas pró–pedestres, como calçadas mais largas. Jonas Donizette, prefeito de Campinas, ficou interessado em adotar a gestão do Central Park no Parque do Taquaral, o principal da cidade de 1,1 milhão de habitantes, gerido pela prefeitura. “Mas o projeto teria de ser adaptado à realidade brasileira, em que as parcerias público-privadas ainda sofrem resistências”, diz Donizette.

No combate à corrupção, a conclusão era de que há semelhanças entre as realidades brasileira e americana, mas os controles por aqui podem melhorar. “Hoje, investigações da prefeitura usam funcionários deslocados de várias secretarias”, diz Raquel Lyra, prefeita de Caruaru, no agreste pernambucano. “Quero montar um departamento só para isso.” Já Miguel Coelho, mandatário de Petrolina, no sertão de Pernambuco, e o mais novo da turma, com 27 anos, viu que a estratégia de mídias sociais que adota segue o recomendado no curso: “Costumo usar gifs (imagens animadas em repetição) para captar a atenção de quem me acompanha no Instagram”.

Aos olhos do mundo corporativo, muitas ideias discutidas podem parecer óbvias, mas a formação em gestão pública aos moldes do curso em Colúmbia é uma novidade. “A exemplo de um CEO, um prefeito é cobrado a tomar decisões de maneira eficiente”, diz Regina Esteves, presidente da Comunitas. “Mas, ao contrário de um executivo privado, o gestor público não tem muitas opções a recorrer numa hora de pressão.”

A inspiração para o curso em Nova York, formato inédito no Brasil, veio de um treinamento semelhante oferecido pela Universidade Harvard, em Boston

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