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Caso se confirmem os prognósticos do cientista político Marcus Melo, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), as eleições de 2018 ocorrerão sem a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e haverá uma alta taxa de renovação no Legislativo, mas não nos cargos majoritários para presidente e governadores.

Melo prevê um “processo curioso, meio esquizofrênico” de mudança na classe política que compara à imagem de um queijo suíço. Caciques poderão ser “varridos do mapa”, o PMDB será tóxico, a candidatura de Jair Bolsonaro definhará por estar longe das preferências do eleitor mediano, e o grande favorito para subir a rampa do Planalto em 1 de janeiro de 2019 é o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB).

Em sua opinião, o tucano só não vence se acontecer falta de coordenação ou algo como se passou na eleição a prefeito do Rio, com o colapso do centro que permitiu a chegada improvável de um bispo – Marcelo Crivella (PRB) – e de um “comunista” – Marcelo Freixo (Psol) – ao segundo turno. “Esse cenário carioca, porém, é improvável na eleição a presidente”, diz. Sobre a chance de haver, por exemplo “três cavalos” querendo ocupar a mesma faixa, Melo afirma que essa possibilidade é reduzida, pois Luciano Huck, João Doria e Aécio Neves são cartas fora do baralho.

Também não acha crível o PMDB lançar um candidato ou mesmo apoiar alguém do núcleo governista, como o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD). “Quem cogita a candidatura dele não tem a menor ideia do que é o perfil do eleitorado brasileiro. É preciso me apontar o sucesso nas urnas de outro ex-banqueiro com muito menos carisma do que o Alckmin – o que é difícil encontrar – e que foi CEO do grupo J&F, maior empresa implicada na Lava-Jato ao lado da Odebrecht “, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Valor:

Valor: Lula conseguirá ser candidato a presidente?

Marcus Melo: Todos os desdobramentos são marcados pelas incertezas, mas as evidências do padrão do TRF-4 indicam a sustentação da condenação. Haverá judicialização, o caso chegará à Corte Suprema e o STF terá que se manifestar. Tudo se encaminha para Lula não ser candidato.

Valor: Mas Lula disse que desistirá de concorrer se for condenado.

Melo: Tudo que o Lula está dizendo agora faz parte de sua estratégia de defesa. Não podemos tomar a declaração pelo valor de face. Há certa ambiguidade nestas situações [de condenação em segunda instância], por causa de liminares. Há precedentes em eleições anteriores de candidatos que conseguiram participar, sub judice. Mas o desenlace deve ser o impedimento de se candidatar. Se concorrer, a rejeição dos eleitores o derrubará.

Valor: Com a condenação é provável que venha também a prisão?

Melo: Aí o cenário é mais nebuloso ainda. Mas a prisão interessa menos aos atores envolvidos do que a condenação. Como solução em futuro não muito distante, pode haver um perdão presidencial. A conciliação é uma tradição nossa desde 1853 com o Marquês do Paraná [primeiro-ministro do período imperial que reuniu liberais e conservadores em seu ministério]. A anistia ocorreu em todos os períodos monárquicos e republicanos. É usada amplamente e está presente nas melhores democracias, pois há casos dessa natureza, em momentos de grande importância. Gerald Ford anistiou Nixon. Na Revolta da Armada, no fim do regime militar, não me surpreenderia se acontecesse com Lula. Aliás, quase aconteceu com o [José] Dirceu [o petista recebeu perdão de pena imposta a ele no julgamento do mensalão, mas continuou preso por condenação na Lava-Jato].

Valor: Qual será a marca das eleições de 2018?

Melo: Haverá uma demanda brutal pela renovação, aumentará a chance de outsiders como não se via há décadas, depois dessa exposição pornográfica da corrupção. A escala do que se tem assistido é o equivalente funcional de uma revolução. Um ex-governador e dois ex-presidentes da Câmara estão na prisão, uma presidente foi alvo de impeachment, magistrados julgam um ex-presidente de enorme popularidade. Historiadores no futuro verão essa época como de grande transformação. Por outro lado, nunca se assistiu reação tão grande das forças que operam no viés pró-incumbente. A começar pelo fundo de campanha de quase R$ 2 bilhões e as regras aprovadas que favorecem os detentores dos atuais assentos. O PMDB ou o candidato que ele apoiar estará sentado em mais de R$ 1 bilhão. Mas o saldo líquido será no sentido da renovação.

Valor: Quais são os sinais?

Melo: Tenho uma pesquisa, com Lúcio Rennó e Ivan Jucá, que estima o impacto de escândalos de corrupção sobre as chances de reeleição de deputados federais enter 1994 e 2010. Um escândalo reduz em 18% a probabilidade de recondução ao mandato. Isso em tempos normais. Com a Lava-Jato será muito grande. Por mais recursos que um deputado do PMDB possa mobilizar dificilmente ele vai evitar. O PMDB se tornou tóxico. Não tivemos eleição desde que começou a Lava-Jato, exceto a municipal, no ano passado, quando o PT perdeu 40% de suas prefeituras, antes de muita coisa vir à tona, como escândalo da JBS e da Odebrecht. No mensalão e no escândalo dos sanguessugas, entre 2005 e 2006, 69 deputados foram envolvidos, dos quais só nove foram eleitos. O impacto de um escândalo de corrupção não é trivial.

“Será a disputa do bilhão, que usa robôs na internet, contra R$ 8 milhões. O Bolsonaro está num partido nanico”

Valor: Apesar disso, não teremos uma eleição parecida com a da Itália depois da Operação Mãos Limpas, que arrasou o sistema partidário e resultou em Silvio Berlusconi.

Melo: Berlusconi é um outlier. Não temos ninguém assim. Era o equivalente a alguém que fosse ao mesmo tempo dono do Corinthians e da Rede Globo, um dos mais ricos do país. Luciano Huck não é comparável. É uma estrela de TV, mas não é dono da maior emissora. Alguém com esse cacife não é facilmente encontrável em outros países. Berlusconi não é da extrema-direita, é mais de centro-direita. Qualquer paralelo com ele é difícil.

Valor: Não há um candidato como ele, mas os partidos brasileiros estão de pé, muito diferente do resultado na Itália.

Melo: Tem razão. O sistema do pentapartito – os cinco partidos que dominavam – desmoronou e depois foi reconstruído. No Brasil, infelizmente, o sistema partidário continua de pé. Vai haver renovação, mas não a esse ponto. Nosso quadro é de hiperfragmentação. Em sete Estados todos os deputados federais são de partidos diferentes. A terapia – o fim das coligações proporcionais – só começa pra valer em 2020 [a partir de 2018, entra em vigor também a cláusula de barreira]. Esse sistema já entrou em colapso. Com Dilma, o partido presidencial tinha apenas 11% das cadeiras da Câmara.

Valor: Apesar da fragmentação, o poder do PMDB continua o mesmo ou maior, agora que está na Presidência.

Melo: Tem protagonismo, mas o seu DNA é o de partido não presidencial por excelência. Não tem nome [para eleição ao Planalto], mas tem recursos [políticos]. O PSDB tem nome e alguns recursos. O PT e o PDT não tem máquina política relevante, somente em alguns entes subnacionais, e algum acesso a recursos partidários. O ‘swing voter’, aquele eleitor volátil, que votou em Lula e Dilma a partir de 2002, não volta mais para o PT. Não têm identificação programática com o PT. Aderiram porque o PT produziu ganhos, mobilidade social vertical, inclusão, isso tudo acabou.

Valor: O primeiro balizador de uma eleição, em regra, é se predomina o desejo de mudança ou de continuidade em relação ao governo de plantão. A questão da corrupção vai embaralhar essa definição?

Melo: A exposição da corrupção nos últimos anos foi pornográfica, mas não vai ser a questão central. Porque o nível e abrangência da Lava-Jato produziram uma sensação de corrupção sistêmica. Quanto maior a exposição, menos a corrupção deixa de ser parâmetro, produz um quadro de cinismo cívico, d que todos são corruptos. Ainda assim, para a maioria a corrupção será definidora. O PMDB e outros partidos e candidatos ancorados em igrejas ou instituições que despertam lealdade muito resiliente podem escapar, mas quem não tiver tem muita chance de ser varrido do mapa. O eleitor poderá deixar de votar no deputado governista que lhe levou benefícios, ao pensar que a maioria dos recursos o parlamentar botava no bolso e o que sobrava é que ia para a região.

Valor: Que candidatos terão vantagem?

Melo: O voto nulo vai crescer muito. A taxa de renovação na Câmara em 2014 foi de 43%. Ela vai se elevar, mas talvez elegendo candidatos dentro das mesmas estruturas. Para os movimentos de renovação, como Agora! e Acredito, creio que poderão ter problemas de coordenação, de acesso aos recursos dos partidos por onde concorrerão.

Valor: Onde haverá renovação de fato?

Melo: Acho difícil que ocorra no nível federal ou nos governos dos Estados porque as barreiras de entrada nestas eleições majoritárias são altas, as campanhas são caras e quase R$ 2 bilhões estarão nas mãos dos partidos. Ocorrerá mais nas eleições proporcionais, via celebridades, por exemplo. Será um processo curioso, mais parecido com um queijo suíço. Algumas estruturas partidárias vão sofrer, mas sobreviver. Alguns caciques escaparão e outros serão varridos, vai ser uma renovação meio esquizofrênica.

Valor: O que muda sem a candidatura de Lula?

Melo: Será um clima bem diferente, acho que forças pró-governo vão agir no sentido de favorecer a candidatura Alckmin. Há um mês ficou mais claro. Aécio se enfraqueceu brutalmente. Na convenção, levou uma vaia, ficou desolado e nem discursou. Isso o neutraliza e fortalece a candidatura do PSDB, pois ele era um legado tóxico. Alckmin é sem sombra de dúvida o candidato. Vai ter o apoio no segundo turno, no que seja, do PMDB, ao fim e ao cabo. E isso torna a candidatura muito forte, a despeito de ser uma eleição de renovação. Alckmin é o establishment há 24 anos em São Paulo e malgrado isso é o que tem maior cacife, recursos do fundo eleitoral e a máquina de São Paulo.

“A renovação vai aumentar nas eleições legislativas, mas talvez elegendo candidatos das mesmas estruturas”

Valor: Em 1 de janeiro de 2019, teremos Alckmin subindo a rampa do Planalto?

Melo: É o cenário mais provável. Sem Lula, Alckmin tem mais chance ainda e provavelmente polarizaria com Marina ou Ciro. A polarização Lula x Bolsonaro só ocorreria em caso de colapso do centro, o que não é o caso, ou um colapso de coordenação, com uma competição predatória da centro-direita, com Alckmin, Huck e Doria, três cavalos querendo ocupar a mesma faixa, mas isso já está definido. Huck, Doria e Aécio são cartas fora do baralho. Geraldo Alckmin se fortaleceu com o enfraquecimento de Aécio. Ele se beneficia de todos os fatores pró-incumbentes. Não sai ileso, mas na elite política é um dos menos afetados pela Lava-Jato.

Valor: Mas a Lava-Jato pode atrapalhá-lo?

Melo: Sim, porque na Lava-Jato você puxa uma pena e sai uma galinha. Pode aparecer o “cisne negro”, ou seja, um evento de baixíssima probabilidade, mas que quando ocorre causa um grande impacto.

Valor: Isso aumentaria a chance de Bolsonaro?

Melo: Há uma hipervalorização da candidatura Bolsonaro. Se houver uma disputa entre a direita e a centro-direita a eleição estará resolvida antecipadamente. Alckmin teria vantagem. Bolsonaro não tem uma bandeira social. Para a maioria dos cidadãos brasileiros, que ganham dois salários mínimos, querem uma saúde pública melhor, metade é miscigenada, ele não tem nada a dizer. Está longe destas demandas. A única bandeira dele é a segurança, e por isso ele não tem zero percentual nas pesquisas.

Valor: Trump também não foi subestimado nos Estados Unidos?

Melo: De maneira nenhuma Bolsonaro se aproxima dele. É um ‘insider’ por excelência, está há 30 anos na política. Tem muita vulnerabilidade também, e se puxar uma pena vem uma galinha, assim como todas as barbaridades que ele falou ao longo do tempo. Ele só teria chance no cenário carioca, algo que a ciência política já modelou. Os extremos só são viáveis com o colapso do centro, como ocorreu no Rio, na eleição a prefeito do ano passado, quando se armou uma disputa improvável entre um bispo e um comunista, entre Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (Psol). E Crivella foi hábil ao migrar para a centro-direita. Se você tem um candidato de centro, ele sempre terá apoio à esquerda ou à direita quando chega a escolha binária no segundo turno. O quadro federal é muito diferente porque o centro está intacto. É o PSDB, a centro-direita, que não entrou em colapso, como o PMDB no Rio.

Valor: E o PT e a esquerda sem a candidatura Lula, como ficam?

Melo: O candidato de centro-esquerda tradicional é sempre o PT, que se enfraqueceu brutalmente em 2014, perdeu 17 deputados federais. Isso vai se acentuar e o PT vai ficar como partido médio. Quem ocupa o espaço é o Ciro Gomes (PDT) que não tem nem de longe o cacife para isso. Uma disputa entre Guilherme Boulos (Psol) e Bolsonaro seria o equivalente no nível federal ao cenário carioca de Freixo versus Crivella.

Valor: O ano de 2018 representará o nascimento de um novo padrão de competição política, sem um partido de esquerda?

Melo: Durante algum tempo a simetria vai continuar. O Brasil não é a Guatemala, tampouco a Colômbia, onde a disputa é entre a direita e a centro-direita. Há países em que o eleitorado é majoritariamente de centro-esquerda, como o Uruguai, onde a direita é desabitada. Nas pesquisas em que se mede a autoidentificação do eleitor, o Brasil é muito equilibrado na distribuição de frequências. Somos mais parecidos com o Chile e a Argentina, com dois campos claros à esquerda e à direita. A Lava-Jato produziu um Bolsonaro, mas ele não tem apelo em outras dimensões, não tem o que dizer na área social, no tema racial. O eixo fundamental é a disputa redistributiva. Alguém que não tenha discurso redistributivo não tem a menor chance. Quem está mais próximo do eleitor mediano terá política social forte. Não é o caso do Bolsonaro. Ele tem um nicho importante para disputa proporcional. Não ganha uma eleição a governador, mesmo no Rio. Só se o centro entrasse em colapso. Não pode caminhar para o centro, depois de 30 anos dizendo o contrário. Quando a campanha começar ele vai desidratar, desaparecer.

Valor: E terá pouco tempo de TV e recursos do fundo eleitoral.

Melo: Mesmo sem o apoio do PMDB, o PSDB pode ter R$ 1 bilhão do fundo, o partido do Bolsonaro terá R$ 8 milhões. Será a disputa do bilhão, que usa robôs na internet, contra R$ 8 milhões. É um partido nanico [Bolsonaro está colonizando o PEN, que se chamará Patriota]. A mesma coisa vale para o [ex-ministro do Supremo] Joaquim Barbosa, ainda que o PSB seja maior e ele possa ter uma votação razoável.

Valor: E a candidatura de Henrique Meirelles?

Melo: Há duas coisas que não fazem sentido. Há um certo exagero sobre o potencial do Bolsonaro e outro exagero sobre o potencial da candidatura de Meirelles. Quem cogita a candidatura dele não tem a menor ideia do que é o perfil do eleitorado brasileiro. É preciso me apontar o sucesso nas urnas de outro ex-banqueiro com muito menos carisma do que o Alckmin – o que é difícil encontrar – e que foi CEO do grupo J&F, maior empresa implicada na Lava-Jato ao lado da Odebrecht. Não tem a menor visibilidade política.

Valor: Nem se a economia melhorar?

Melo: Em hipótese alguma, porque o PSDB pode reivindicar, crivelmente, o crédito pelo sucesso na estabilização e mesmo que não chegue a personalizar pode dizer que tem a competência para fazer isso, pode ser herdeiro desse legado. O PSD e o PMDB atraem só meia-dúzia do mercado em São Paulo. Por mais que o efeito “feel good” favoreça o incumbente, o atual incumbente é figura que não vale para análise política tradicional. Só foi alguém para solução da crise do impeachment e cujo assessor foi flagrado carregando mala com R$ 500 mil. O incumbente não existe e se tornou tóxico. Querem transferir a candidatura para o Meirelles, mas não funciona assim.

Fonte Valor econômico

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