download (1)A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) bem que tentou, pela indignação retórica, esmaecer as evidências que pesam contra seu marido, o ex-ministro Paulo Bernardo. Mas a coisa não surtiu muito efeito. De resto, como boa petista, ela preferiu deixar a plausibilidade de lado para investir em teorias conspiratórias. E aí tudo acabou caindo no ridículo. Até o timing da senadora estava errado.

Nesta segunda, o juiz Paulo Bueno de Azevedo, da 6ª Vara Criminal de São Paulo, ouviu o advogado Guilherme Gonçalves, preso no domingo. Ele é acusado pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal de ser uma espécie de laranja de Paulo Bernardo numa falcatrua milionária que vigia no Ministério do Planejamento envolvendo empréstimos consignados.

Depois de ouvir Gonçalves, o juiz decidiu manter a sua própria prisão preventiva. E fez o mesmo com Walter Correia, ex-secretário de Gestão de Fernando Haddad; Paulo Ferreira, ex-tesoureiro do PT, e Paulo Bernardo, marido de Gleisi.

Segundo o Ministério Público Federal, o Grupo Consist, contratado pelo Ministério do Planejamento para gerir os empréstimos consignados, cobrava além do necessário e repassava 70% dessa cobrança indevida para o PT. O esquema teria movimentado R$ 100 milhões entre 2009 e 2015. Bernardo teria recebido R$ 7 milhões — justamente o dinheiro que foi parar na conta de Gonçalves.

Não falta ao caso um delator premiado, que entregou todo o serviço: trata-se do ex-vereador petista Alexandre Romano, o Chambinho. Segundo disse, o dinheiro era dividido entre ele próprio, o ex-ministro e o PT, tudo sob o gerenciamento de João Vaccari Neto.

Não parece, em suma, que Paulo Bernardo vá escapar com muita facilidade do cerco. Muito bem, dito isso, vamos lá, seguindo uma das máximas de Voltaire, segundo a qual o segredo de aborrecer é dizer tudo.

Gleisi reclamou do que chamou de “operação midiática” na prisão de Paulo Bernardo, que contou até com o uso de helicóptero, o que parece mesmo ser um despropósito. Também protestou contra a busca e apreensão no apartamento casal. Ela tem foro especial e, no que lhe diz respeito, uma ação de tal natureza teria de ser autorizada pelo Supremo. A justificativa da Justiça Federal é que o alvo era ele, que não tem tal prerrogativa. A senadora chamou ainda a prisão preventiva do marido de ilegal e de injustificada.

Também eu acho uma desnecessidade recorrer a helicópteros para prender alguém como Bernardo. Também me parece plausível discutir, sim, se era o caso de prisão preventiva com base na manutenção da ordem pública e para garantir a aplicação da lei penal. Tivesse a senadora parado por aí, vá lá.

Mas a mulher é petista. E isso quer dizer que ela não aprende nada nem esquece nada. E pode usar até um inequívoco drama também familiar — afinal, o pai de seus filhos foi preso — para fazer proselitismo da mais baixa extração.

Gleisi não se conformou em apontar apenas os eventuais exageros da operação ou em garantir a inocência do marido — e é compreensível que o faça. Não! Para ela, a operação Custo Brasil é “uma clara tentativa de abalar emocionalmente o trabalho de um grupo crescente de senadores que discordam dos argumentos que vêm sendo usados para tirar da Presidência uma mulher eleita legitimamente pelo povo brasileiro; afastar uma presidenta, legitimamente eleita por mais de 54 milhões de votos”.

Aí já se trata de má-fé mesmo, que não cede nem diante de tamanha adversidade. Os petistas precisam decidir se a Lava Jato e seus desdobramentos fazem parte de uma grande conspiração contra o PT ou se é o governo Temer, como alega Dilma, que conspira contra a Lava Jato. As duas coisas não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, certo?

Na versão de Gleisi, então, o alvo da operação nem seria Paulo Bernardo, mas ela própria, que resolveu chefiar a tropa de resistência ao impeachment no Senado.

Dizer o quê? O conjunto da obra, levado a público pela senadora, simplesmente não faz sentido.

Fonte: Reinaldo Azevedo

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